Bistrô do Jazz | Se o Jazz é um som historicamente popular, por que é difícil de se OUVIR?
16 Sep 2011

Parece difícil?
Trilha sonora para a coluna de hoje: Sonny Rollins e seu “Sambinha de Carnaval”
Olá meus nobres! Meu nome é Pedro Giulliano e fui gentilmente convidado pelos curadores deste formidoloso site para escrever sobre Jazz, aos quais devo minha eterna gratidão por me ajudar a realizar um sonho: escrever sobre coisas que gosto sem necessariamente ser jornalista (WIN NA VIDA).
De antemão esclareço aos leitores que, apesar da minha audácia em querer escrever sobre algo tão complexo como Jazz, eu não sou especialista em absolutamente nada, nem um profundo conhecedor de tal gênero musical. Sou apenas um apaixonado pelo Jazz e suas vertentes, que pesquisa e se empolga com solos gigantescos e que, tendo em vista a pouca idade (tenho 20 anos), não consegue achar uma explicação concreta para o porquê de um estilo musical tão bom como o Jazz não andar mais em evidência como antigamente, na época em que a Dercy era virgem.
Um dos motivos para tal sumiço do Jazz, em minha opinião, está na sua dificuldade de se ouvir, e explicarei por que (me perdoem pelas bobagens ditas Ed Motta, José Raffaelli e bancada da JJA – Journalists Jazz Award).
Atentem-se à CITAÇÃO:
“É som de preto, de favelado, e quando toca ninguém fica parado!” – Miles Davis.
Eu sempre faço essa piadinha infame acima, parafraseando esta verdadeira pérola da poetisa do funk carioca – Tati Quebra Barraco – e atrelando-a ao grande ícone do jazz moderno. É uma grande bobagem, eu sei, mas ela tem muito sentido quando se trata deste assunto. Vou lhes explicar o porquê.
O Jazz, assim como o Blues, tem na sua raiz histórica o fato de ser uma vertente popular americana da música clássica, misturando principalmente as tradições musicais afrodescendentes que incorporaram as blue notes, a síncope e, principalmente, a deliciosa improvisação em seu estilo, revolucionando/modernizando/evoluindo e adaptando, portanto, a maneira de se fazer e ouvir música em pleno início de século XX, quando a influência da música clássica e das grandes óperas era evidente.
Trata-se então de uma popularização do erudito (este sim difícil de ouvir), o que NÃO torna o Jazz e o Blues diferentes do Samba, por exemplo, que também se revolucionou/modernizou/evoluiu e adaptou, mas com a única diferença de ter quase que exclusivamente raízes africanas, com raros traços influenciadores da música erudita.

Foi aqui que nasceu a música que hoje é considerada refinada
Então, o que torna o Jazz tão difícil de ser ouvido e degustado em todas as suas excelências? A resposta para esta pergunta é justamente o mesmo processo que o próprio estilo sofreu em sua nascente, mas, a meu ver, de uma forma um tanto negativa.
Principalmente após metade dos anos 70, a industrialização da música era um processo corrente. A música não era mais uma “obra de arte”, mas sim um “produto” a ser consumido. Algumas gravadoras e produtores viram que esse negócio de música dava um dinheiro danado. Casas de shows e estádios precisavam ser lotados e as vendas de discos/vinis, que nos anos 50/60 rodavam na casa dos milhares, agora tinham inexoravelmente que rodar na casa dos milhões, e é assim até hoje.
Ou seja, a divisão de estilos e a diversidade de sons não eram/são bons negócios para esta grande “indústria” chamada Música, e o que ocorreu desde aquela época foi uma outra grande revolução/modernização/evolução e adaptação da música, só que no sentido contrário: Foi/é necessário a condensação e a mesmerização do jeito de se fazer e ouvir a música, pela necessidade de alcançar o máximo de “consumidores” possível, maximizando, assim, os lucros de um determinado “produto”, como é o caso da música “sertaneja” contemporânea e o “Pop”, que nada são além de repetições do mesmo tema (amor, sofrimento, traição e etc.) em cima da mesma base rítmica e estrutural, facilitando assim a assimilação e a deglutição auricular de um ritmo mais simples e necrosando nossa capacidade cerebral de assimilar, ou compreender, algo mais complexo (não é uma crítica, é provado cientificamente).
O único estilo que nasceu no meio deste processo (final dos anos 70) e cultivou seu processo evolutivo, no lado positivo da música, foi o “Rap” que veio com a influência do Jazz e do Funk-Soul dos anos 60, mas que acabou se rendendo ao mesmo processo degenerativo citado há pouco.

Filho improvável do jazz?
Esta simplificação musical tornou os ouvidos contemporâneos muito menos sensíveis a um ritmo que foge destes padrões popularizantes-mercadológicos no qual a música se submeteu, tornando o bom e velho jazz de raiz praticamente impossível de ser degustado como era antes. Mas mesmo assim, o próprio Miles Davis não descansou e remou contra a maré em plenos anos 80 levando o Jazz a outros patamares… Mas isto é assunto pra outra hora.
Falei tanta besteira só pra deixar expresso aqui a minha indignação quando falam que o Jazz se tornou elitizado ou coisa de velho. Muito pelo contrário: não há um estilo sequer, contemporâneo ou antigo (exceto a música erudita), que não tenha em suas veias o DNA do Jazz em algum de seus traços de personalidade, e, além disso, o Jazz é e sempre foi um som popular, feito por gente simples, num tipo de expressão cultural e artística soberba que atravessou os tempos de maneira intacta, assim como o Samba, Pagode, Axé de raiz e afins.
Quem sabe o que se tornou elitizado no fim das contas, seja o próprio ouvido dos atuais “Consumidores em Potencial”.
(As espinafradas contra minhas asneiras estão permitidas nos comentários! Sigam-me no twitter – @magallz- para ler pensatas imbecis, piadinhas infames e lindas dicas de Jazz.)












